Governador concede comenda à doutora Tatiana Lobo Coelho de Sampaio
Por Hellen Clementino
Nos últimos dias, as redes sociais foram tomadas por vídeos, relatos emocionados e uma palavra que até pouco tempo atrás era desconhecida da maioria das pessoas: polilaminina.

Por trás desse nome difícil está uma mulher. Uma cientista. Uma pesquisadora brasileira que não desistiu quando desistir seria o caminho mais fácil. O nome dela é Tatiana Lobo Coelho de Sampaio, pesquisadora da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Hoje um orgulho nacional.
E é a ela que o governador do Espírito Santo presta homenagem ao conceder uma comenda que, mais do que simbólica, é necessária.

A polilaminina não nasceu ontem e não surgiu por causa de curtidas, tampouco foi criada para viralizar. Ela é resultado de mais de 20 anos de pesquisa dentro de laboratório, estudando a laminina, proteína essencial para a organização celular, e desenvolvendo uma versão modificada capaz de estimular a regeneração de conexões nervosas.
Traduzindo, trata-se de uma pesquisa que busca ajudar o corpo a reconectar neurônios e músculos, principalmente em pacientes com lesões medulares e comprometimentos neuromotores, aquele que perderam movimentos.
Os resultados iniciais impressionam. Em um estudo piloto com oito pacientes com lesões graves na medula, seis apresentaram melhora na função motora após acompanhamento terapêutico com a proteína. Também houve respostas positivas em modelos animais. É cedo? É. Ainda é fase de pesquisa? Sim. Mas é sério. É método. É protocolo. É ciência.
E aqui é preciso dizer algo que muitas vezes se evita: essa pesquisa quase não sobreviveu.
Durante os anos de cortes profundos na ciência brasileira, especialmente no período do governo Michel Temer, projetos foram paralisados, bolsas foram cortadas, laboratórios ficaram à míngua. A polilaminina também sentiu. A própria doutora Tatiana já relatou que precisou tirar dinheiro do próprio bolso para manter o estudo vivo.
Enquanto muitos desacreditavam da ciência nacional, ela insistiu. Persistiu entre editais escassos. Manteve equipe. Buscou alternativa. Seguiu trabalhando quando quase ninguém estava olhando.
Agora, quando a pesquisa começa a ganhar visibilidade, quando o ministro Alexandre Padilha anuncia a liberação de novas etapas regulatórias para ampliar os estudos, quando famílias começam a enxergar uma possibilidade concreta de avanço, é justo reconhecer quem sustentou essa chama acesa.
O “boom” nas redes não é sede de esperança. É o grito silencioso de mães, pais e pacientes que convivem há anos com limitações, sequelas e diagnósticos duros. A polilaminina, embora tenha formato de cruz, não é promessa mágica. É pesquisa em andamento. E é exatamente por isso que o reconhecimento institucional importa.

A comenda concedida pelo governador do Espírito Santo, Renato Casagrande, não homenageia apenas uma pesquisadora. Ela envia uma mensagem política e social clara de que ciência importa. Investimento importa. Pesquisador não é gasto, é patrimônio.
Se o Brasil quer avançar, precisa parar de tratar ciência como despesa eventual e começar a tratá-la como prioridade estratégica.
Porque no fim das contas, essa história não é só sobre uma proteína. É sobre resistência. É sobre acreditar na pesquisa brasileira quando ela parecia invisível. É sobre entender que esperança não nasce de discurso — nasce de laboratório.
E se há algo que essa trajetória deixa claro é, que, sem investimento, não há ciência.
E sem ciência, não há futuro.

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