O autismo do palco está longe de narrar a realidade
A romantização do autismo machuca!
Nos últimos tempos, o apresentador Marcos Mion tem virado um símbolo da causa autista no Brasil. Fala bonito, emociona, inspira. Mas, enquanto isso, milhares de mães espalhadas por esse país olham para a TV e sentem um aperto no peito. Porque aquilo que se mostra como “história de superação” não tem nada a ver com a vida real da maioria das famílias atípicas.

Falar de autismo é bonito quando se tem estrutura, tempo, dinheiro e apoio. Difícil é falar quando se está exausta, com olheiras profundas e o coração em frangalhos, tentando dar conta de tudo sozinha. Difícil é encontrar poesia quando falta o básico, quando o Estado falha, quando o sistema de saúde não acolhe, quando a escola não entende, quando o preconceito pesa.
É fácil romantizar o autismo quando se vive no conforto, com acessos particulares e rede de apoio. Difícil é estar do outro lado: o das mães que viraram terapeutas, professoras e enfermeiras por amor e necessidade. Que perdem o emprego porque o filho precisa de cuidados o tempo todo e conseguem nenhum benefício financeiro. Que vivem sem rede de apoio, sem terapia, sem descanso e, muitas vezes, sem esperança.
A influenciadora Nathalia Carmo, mãe de três crianças diagnosticadas com Transtorno do Espectro Autista (TEA), compartilhou um desabafo em suas redes sociais sobre as dificuldades de criar filhos com essa condição. No vídeo, que viralizou nas redes sociais, a mulher fez críticas ao apresentador Marcos Mion sobre a forma que ele aborda o autismo em suas aparições públicas e produções audiovisuais.
Nathalia afirmou estar “cansada da romantização desenfreada” em torno do tema. “Marcos Mion e a sua romantização do autismo. Eu simplesmente não aguento mais ver Marcos Mion romantizando isso nas entrevistas, nos programas… agora tem um filme com essa romantização, com essa coisa quase utópica do autismo”, iniciou ela, referindo-se à produção Meu Melhor Amigo (MMA).

A mãe também relatou as dificuldades cotidianas de cuidar dos filhos sem rede de apoio e com limitações financeiras, contrastando sua realidade com a de famílias de maior poder aquisitivo.
Eu tô exausta disso Porque eu vivo o autismo aqui sem rede de apoio, sem condições financeiras, sem nada, entendeu? Com acesso a b*sta de um salário mínimo, porque eu não posso sair pra trabalhar E tem dias, cara, que eu tô implorando pra alguém pegar meu filho e levar Leva ele, fica duas, três horas com ele Por favor, porque eu não estou aguentando mais, entendeu?
O problema não é o Mion falar de sua realidade privilegiada, o problema é o país ouvir só ele. Porque o Brasil real está cheio de mães que choram escondido, que imploram vaga para terapia, que enfrentam filas e portas fechadas. Enquanto a mídia aplaude o “exemplo”, a realidade sangra em silêncio.
Romantizar o autismo é apagar as dores de quem vive a exclusão na pele. É fingir que basta amor, e não, não basta. Amor ajuda, mas não paga terapia, não garante inclusão, não muda leis, não alivia o cansaço.
É urgente parar de transformar a dor das famílias atípicas em espetáculo inspirador. Porque o que elas precisam não é de palco e sim de política pública, respeito, estrutura, acolhimento de verdade.
O autismo não é poesia. É vida real. É luta diária. É mãe que desaba no banheiro e levanta de novo porque o filho precisa dela. É o que ninguém mostra, mas é o que mais precisa ser visto.
Enquanto o Brasil continuar aplaudindo o brilho dos holofotes, vai continuar ignorando quem vive no escuro.
Por Hellen Clementino – Folha Aracruz

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