Uma decisão de dias contra um século de histórias

Uma decisão de dias contra um século de histórias

A história que atravessa a BR-101 na nossa região

Um casarão centenário, quatro gerações de uma família e uma vida construída ao longo de mais de 100 anos. Essa é a história que hoje se cruza com a duplicação da BR-101, uma obra aguardada, necessária e que promete trazer segurança, fluidez e crescimento para cidades como Aracruz, Ibiraçu, João Neiva e Fundão.

O terreno do casarão tem cerca de 6.700 metros quadrados e está no traçado exato do contorno da rodovia em Ibiraçu. Entre os moradores estão dois idosos, de 100 e 97 anos, que carregam naquele espaço toda a memória de uma vida inteira. Quatro gerações passaram por ali.

Histórias, convivência, lembranças que nenhum cálculo financeiro consegue mensurar. Para essa família, sair dali é um rompimento com tudo que construíram e viveram.

Obras do artista Jose Paulo Dileta estao no casarao centenario em Ibiracu

A discussão sobre a indenização se tornou outro ponto sensível. A concessionária ofereceu menos de R$ 1 milhão, enquanto a avaliação da família ultrapassa R$ 6 milhões. A diferença evidencia que o que está em jogo não cabe em números. É a história de pessoas, é a vida que não se reconstrói em outro endereço.

A família tentou alternativas: buscou diálogo, apresentou pedidos para reconhecimento histórico do imóvel e até a possibilidade de tombamento. Tudo sem sucesso. O processo segue criteriosamente técnico, dentro da legalidade, mas sem olhar para o que já existe ali há décadas. Pelo menos 20 propriedades na região serão atingidas pelo contorno, incluindo plantações, imóveis e pequenas empresas.

O peso dessa realidade ficou ainda mais evidente com a decisão da Justiça. A juíza da comarca de Aracruz determinou a desocupação do casarão até 26 de março, autorizando, se necessário, a retirada forçada com apoio policial. A tentativa de reverter a decisão foi negada, deixando claro que, no papel, o progresso tem prioridade sobre a história.

A duplicação da BR-101, com extensão prevista de cerca de 4,2 km para o contorno de Ibiraçu, inclui dois viadutos e promete desafogar o trânsito da cidade, reduzir ruídos e aumentar a segurança viária. É uma obra que a região precisava. Mas essa história mostra que todo desenvolvimento passa por vidas reais e que, quando a pressa do progresso encontra a lentidão da memória, há perdas que nenhuma obra consegue substituir.

Essa situação exige reflexão. Crescer é necessário, avançar também. Mas é preciso olhar para quem está no caminho e considerar o custo humano do progresso. Entre decisões técnicas, investimentos milionários e prazos de obra, existem histórias que não têm como começar de novo.